Afinal, para que serve audiolivro?

domingo, 20 de setembro de 2015 04:52:35 America/Sao_Paulo

Uma conversa curiosa aconteceu em uma feira de livros com uma mulher que nos ajudava a vender nossos audiolivros. Depois de um tempo ali trabalhando, ela disse:

“É engraçado, passou gente aqui dizendo: ‘audiolivro é bom para quem não enxerga’. Depois veio outro e disse: ‘ah, audiolivro é bom para quem não sabe ler’. Depois, veio outro e falou: ‘é bom para quem tem preguiça. Chegou uma hora que eu não aguentei mais e falei: é bom para todo mundo, para todos os casos, só não serve para deficiente auditivo”.

Com todo o respeito às pessoas com deficiência auditiva, sem intenção de envolvê-las em qualquer tipo de piada, o desabafo da nossa ajudante acabou sendo engraçado.

A verdade é que o audiolivro era na época – e é ainda – um produto novo, relativamente desconhecido no Brasil. Assim, as pessoas ficam sempre tentando entender aquela novidade, dar um sentido a ela, ver onde ela se encaixa no dia a dia.

Como produtora, descobri que ele pode ser – e é – usado de muitas formas. Eu gosto de escutar audiolivros no carro. E, dependendo do envolvimento com o título que estou escutando, às vezes chego a lamentar que o trânsito não esteja muito ruim. Também uso esse produto para suprir minha necessidade insaciável por livros. Gosto de escutar em áudio os títulos de meus autores e assuntos favoritos, pois não teria tempo de ler tudo que gostaria. Mas também já vivi a experiência de escutar alguns best-sellers que eu acreditava que precisava conhecer por razões profissionais mas para os quais simplesmente não tinha vontade de dedicar algum tempo da minha vida. Ao escutar uma obra no trânsito não tenho a sensação de estar “perdendo tempo” como teria se lesse o mesmo livro em casa. Ao contrário, a sensação é de estar “ganhando tempo”.

Também testemunhei muitas variadas razões para as pessoas escutarem audiolivros. Amar os livros e querer estar com eles o tempo todo -- na chuva, na fazenda, no banheiro, no carro -- é a minha. Mas existe gente que não gosta de ler. Isso não é pecado. Mesmo quem não gosta de ler reconhece a importância dos livros. Os livros – o seu conteúdo, naturalmente – são indispensáveis para o aprendizado e o desenvolvimento mental em todas as sociedades de linguagem organizada. A importância não está só nos didáticos. Os de não ficção nas áreas de desenvolvimento pessoal e profissional podem levar a verdadeiras guinadas na vida das pessoas. Os esotéricos e religiosos são responsáveis pela estruturação das doutrinas. E há ainda os de culinária, os de história, os biográficos, enfim, livros para todas as questões pertinentes à vida humana. Não há sociedade que negue ou ignore o valor e a importância dos livros. Aos de ficção, muitas vezes valorizados só como forma de entretenimento, cabe a glamourosa missão de ajudar a desenvolver a capacidade de escrita, de registrar usos e costumes, de penetrar a alma humana, etc.

Assim, muita gente que não gosta de ler pode sim gostar muito de audiolivros. E há também quem não sabe ler. Afinal, saber ler não é simplesmente saber que b+o é “bo” e l+a é “la” e bo+la é “bola”. Ler é uma atividade bem mais complexa, que exige o reconhecimento das relações frasais, além do conhecimento de vocabulário e a capacidade de fazer relações com a realidade. O índice de analfabetismo adulto no Brasil caiu desde a década de 1990 até o ano de 2012, com um minúsculo retrocesso entre 2011 e 2012, segundo pesquisa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatítica). Porém, ainda é alto. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), com dados coletados em 2012, mostrou que a taxa de analfabetismo da população com 15 anos ou mais na época era de 8,7%. E pior ainda é o índice de analfabetismo funcional.

A última pesquisa sobre o Indicador de Analfabetismo Funcional, o Inaf, realizada pelo Instituto Paulo Montenegro e pela Ação Educativa, publicada em 2016, mostrou resultados melhores em termos de analfabetismo total (4% do grupo), porém, ainda preocupantes no que diz respeito ao analfabetismo funcional -- 27% das pessoas foram classificadas como analfabetas funcionais, que não conseguem realizar tarefas simples envolvendo a leitura de palavras e frases.

Dos alfabetizados funcionalmente, a maior parte (42%) foi classificada no grupo elementar, ou seja, de pessoas que só realizam a leitura de uma ou mais unidades de informação em textos de extensão média. Cerca de 23% estava na condição intermediária e apenas 8% dos respondentes se encaixavam no último grupo de alfabetismo, revelando domínio de habilidades sem restrições para compreender e interpretar textos.

Quando comecei a comercializar audiolivros no formato de CD de MP3, a mulher que trabalhava como cozinheira na minha casa insistia em comprar todos os títulos que eu lançava, fosse o que fosse. Demorei um pouco para entender o porquê de tanto fascínio dela por aqueles títulos todos. Descobri que ela não sabia ler e na verdade estava fascinada pela possibilidade de “ler em áudio”. Era um passo rumo à cidadania, talvez. Um direito reconhecido.

Por outro lado, também não é óbvio o fato de que todo mundo que não pode ou não consegue ler livros em papel vai automaticamente gostar de audiolivros. Conheci deficientes visuais que não gostam de audiolivros. Eles liam em braile. Talvez a explicação para isso esteja na manifestação mais sincera que recebi, vinda de uma amiga a quem eu vivia querendo dar audiolivros de presente: “Não adianta, não sou uma pessoa auditiva”.

A verdade é que tem gente capaz de escutar uma curta explicação e entender tudo rapidamente, mas que às vezes não consegue compreender uma planta baixa de um apartamento, por exemplo. Já outras pessoas são capazes de ler com facilidade mas não conseguem compreender a leitura de um simples parágrafo se ele for lido para elas. Tem gente que usa bem a memória visual, outros fazem contas com facilidade. Outros guardam informações na memória a partir de rimas ou criando relações entre informações. Cada um com seu jeito de funcionar. Uns são auditivos, outros, visuais ou lógicos, musicais ou poetas ou sonhadores. Que bom que o mundo hoje tem o mesmo livro em diferentes suportes para pessoas que funcionam de jeitos diferentes.

Um dia um artista gráfico bem-sucedido comentou: “Se existisse audiolivro na minha época de jovem, minha vida teria sido muito mais fácil. Sou disléxico. Sofri muito. Hoje aprendo, me divirto e me realizo com audiolivros.”


 

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Livro Falante

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